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Luzia sonha…
By mersao | September 7, 2008
Luzia olhava no sentido do nada. Embalada pelos movimentos frívolos do homem que, deitado sobre ela, a penetrava freneticamente. Era um cliente conhecido. Sempre calado, chegava, aproveitava os quarenta e cinco minutos pelos quais pagara e ia embora. Sempre procurava por Luzia. Quando não a encontrava simplesmente ia embora. Eram cerca de três e meia da madrugada de uma sexta feira de maio. Quando Luzia o atendeu já avisou à cafetina de que seria o último daquela noite. Ela tinha coisas importantes a fazer naquela manhã. O homem pulsava como um animal copulando. Suava copiosamente. Luzia embalava o seu script. Gemia, contorcia-se a ponto de fazer o cliente achar que ela sentia algum prazer. No âmago ela só sentia nojo, ódio daquela vida, ódio de homens. O cliente ia chegar ao orgasmo. Seguindo aquilo que fazia com maestria, o induziu ao êxtase. Um tapa na cara. Uma ardência leve que valia os cinqüenta reais a mais que recebia por aceitar tal violência. Acabou. Três infinitos minutos depois ele já caminhava para o banho. Ela o ajudou. Ele foi-se. Ela pegou seu dinheiro, um mil e quatrocentos reais naquela noite. Chamou um táxi e foi para casa.
A foto de Ana Elisa era um bálsamo para seu auto desprezo. Se existia um motivo por ela ainda estar fazendo o que fazia era Ana Elisa. Passou as mãos sobre o retrato da filha sobre a estante. Estava ansiosa por vê-la naquela manhã. Seria a apresentação do dia das mães na escolinha. Luzia entrou no chuveiro para tomar seu banho. Lavava-se como se estivesse saído de um pântano. Muito sabão para tentar tirar o cheiro de homem que ela não parava de sentir. Movimentos frenéticos com as mãos. A bucha caminhava pelo seu lindo corpo. Mas o que Luzia queria limpar já era inerente à pele. No banheiro enevoado num flat dos jardins em São Paulo, lágrimas misturavam-se à água do banho. Já eram cinco horas da manhã quando ela saiu do chuveiro. Vestiu-se. Às cinco e trinta havia na sala uma mulher altiva, linda, morena de olhos verdes profundos como um lago escocês. Olhou para o retrato de Ana Elisa. ‘Você merece’, pensou. Desceu à rua e chamou um táxi.
Rodoviária do Tietê. Maior terminal rodoviário da América latina. Milhares de pessoas dando vida àquela grande armação de concreto. Uma linda mulher caminhava em direção às cabines que vendiam bilhetes de passagens. Viação Reunidas. Destino: Sorocaba.
Rodoviária de Sorocaba. Uma linda morena dirigia-se rumo ao ponto de táxis.. Táxi até a casa de Lourdes. Nove horas da manhã. Luzia toca a campainha da casa. Se alguém um dia conseguisse descrever o que é cumplicidade, descreveria a relação de Luzia e Lourdes. Irmãs com uma história riquíssima. Fizeram de um passado sofrido o alicerce para uma vida de grandes batalhas. Sem censuras nem cobranças. Aceitavam suas opções e se ajudavam. O lema era: se você se prejudica, sem prejudicar ninguém, então a escolha é sua e eu não devo interferir. Assim Luzia era uma prostitua de luxo em São Paulo e Lourdes uma secretária executiva em Sorocaba. Lourdes recebeu a irmã com um abraço. A mesa do café estava posta. Como sempre completa. Se fossem comer tudo que havia ali ficariam sentadas até à tarde. A apresentação de Ana Elisa seria às onze horas. A escolinha ficara a dez minutos andando. Deu tempo para colocarem a conversa em dia. Os assuntos sempre circulavam pelos últimos tempos. Tocar no passado era dolorido.
Chegaram juntas à escola. Ana Elisa era a única criança que ira homenagear duas mães. Sentaram-se num local de ótima visibilidade. Dez minutos mais tarde o show começou. Ana Elisa representava Maria, mãe de Jesus. Estava usando um vestido típico de filme bíblico. Sua pele oliva e seus olhos cor de mel iluminavam o palco. Luzia emocionou-se ao ver a filha. Quanta pureza. Pediu a Deus que a abençoasse. Que não a castigasse pela mãe que tinha. Ao ver Ana Elisa tão linda no palco lembrou-se que foi quando ela tinha esta idade que seu pai entrou no quartinho que dividia com Lourdes e aconteceu pela primeira vez. Dor, sangue, medo. Sua mãe apanhando, Lourdes passando pela mesma situação. Uma luz forte. Luzia voltou ao presente. Era dolorido demais pensar no passado. Ana Elisa vinha correndo do palco com duas rosas nas mãos. Uma para cada mãe. Luzia chorou a cântaros. Lourdes era mais contida. Seguiu-se a festinha. À uma hora da tarde estavam em casa. Lourdes que havia tirado a manhã de folga por causa da festa, fora para a empresa. Luzia ficou com a filha. Ligaram a TV. A tarde prometia ser fria. Pegaram um edredom e ficaram juntinhas assistindo a um documentário sobre animais selvagens. Ambas amavam o assunto. Luzia estava muito cansada. Pediu colo para própria filha. Explicou que havia trabalhado na casa noturna até tarde. Adormeceu.
Lourdes ficou impressionada com a calma com que a sobrinha aceitara a morte da mãe. O legista confirmou que o consumo excessivo de anfetaminas enfraquecera demais o coração de Luzia. Sábado de manhã. Lourdes enterrou sua irmã. Estuprada pelo próprio pai durante anos, escolhera o sexo como profissão. Sonhava parar um dia e viver uma vida normal ao lado da filha. Que bom que, ao menos, ela sonhou.
Topics: Devaneios, Pessoal | 2 Comments »


September 11th, 2008 at 7:58 am
noxa q historia triste
mais legal!!!
September 29th, 2008 at 9:06 pm
Gostei…muito ….(Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaa)