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Laurentina

By mersao | August 1, 2008

Laurentina torceu o pano de chão naquela tarde de quinta feira e terminou de enxugar o piso de vermelhão de sua cozinha. Jogou a água do pequeno balde no tanque que ficava ao lado da porta de saída da cozinha e encostou o rodo na parede. O pano transformou-se num capacho. Assim, quando Euzébio chegasse mais tarde, poderia limpar seus pés antes de entrar.

Sua casa era simples. Cozinha, quarto e banheiro. Ficava numa viela úmida na região chamada Glicério no centro de São Paulo. Limpar a própria casa era um prazer imenso. Laurentina, que chamavam de Tina, era faxineira. E das boas. Tinha todos os dias ocupados de segunda a sábado. Domingo era o único dia de descanso. Chegava em casa sempre antes de Euzébio que era porteiro num prédio na rua Barão de Itapetininga. Evangélicos, tinham uma vida pacata. A casa simples ali no Glicério era um sonho que realizara. A escritura não existia. O medo de perderem a posse de seu lar era aliviado com as orações fervorosas na imensa igreja que ficava próxima dali.

Sua vida pregressa era uma coisa a esquecer. Alcoolismo, aborto, casamentos efêmeros e tudo aquilo que a atual religião pregava como coisa do diabo. Já Euzébio era um cidadão opaco. Conheceram-se na igreja no dia em que Tina convertera-se. Já se passaram cinco anos e ambos viviam bem. Sexo era ruim, mas também era pecado. Não podia se queixar.

A casa estava limpa. Tina observou o chão brilhando, as panelas tão limpas que pareciam espelhos. Os copos na pequena cristaleira. Um jogo de meia dúzia, intocados, mais alguns tantos de diversas cores e tamanhos. Presentes das patroas. Puxou uma cadeira que ainda mantinha o plástico com o qual viera da loja. Assim as mantinham para que durassem mais. Acabara de pagar a última do carnê. Tinha que ter cuidado. Estendeu um pano de copa muito branco sobre a mesa, pegou do armário um saco com feijão e despejou um punhado sobre o pano. Sentou-se e colocou-se a escolher o feijão.

Pensou sobre o dia seguinte, sexta feira. A patroa da sexta era um tanto quanto nervosa, mas a casa era fácil de manter. Cinco horas no máximo estaria em casa. Não podia perder o culto daquela sexta-feira. Seria com um pastor famoso que aparecia até na televisão. Sorriu. Agradeceu a Deus por ter uma vida boa apesar do que fora no passado. Uma casa do seu gosto, um homem bom, emprego e dinheiro para manter a casa e pagar o dízimo. Era realmente uma pessoa de sorte.

Concentrou-se no feijão. Estranhamente não conseguia fixar os olhos no que estava fazendo. As cores começaram a se misturar. Sentiu uma tonteira leve e os lábios formigando. Pensou em pegar um copo d’água. Levantou-se. Tudo girou muito rapidamente. Sentiu o corpo batendo no chão. Frio. Escuridão.

Euzébio guardou o corpo da esposa sozinho durante aquela noite no cemitério da quarta parada. Para o enterro vieram conhecidos, irmãos da igreja e uma das patroas.

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