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Coletivos

By mersao | June 29, 2008

Saí no horário e caminhei para o ponto de ônibus. Sair do trabalho para mim é continuar trabalhando andando. Os problemas me acompanham quase sempre. Devo parecer louco, pois enquanto imagino o trabalho, também converso. O sol ainda estava em algum lugar, mas as sombras dos edifícios traziam a sensação antecipada do anoitecer. O céu agora era de verão. São Paulo tem destas, você vive todas as estações do ano, num único dia. Por entre os prédios, o entardecer róseo dava um tom melancólico ao meu trajeto. Atravessei a Faria Lima no cruzamento com a Rebouças. Cheguei ao ponto. Um ponto bonito, moderno e projetado por pessoas que não precisam usá-lo. O problema do transporte coletivo é que é coletivo demais. Passa um ônibus, outro e mais outro. Sempre lotados, lentos. Cotovelos, pisões, empurrões. A educação não pega ônibus. Sinto-me um espermatozóide tentando fecundar um óvulo. Passa um menos cheio. Destino: Praça Ramos. Não é o ideal, mas entro neste. Chegando na Consolação desço e caminho até o metrô de mesmo nome que fica na Paulista. Não entendo por que esta estação não se chama Hadock Lobo ou Bela Cintra. Meus planos estavam feitos, mas o universo decidiu por outro. O ônibus arrastou-se Rebouças acima e quando chegou à Consolação estava tão cheio que não consegui descer. O jeito foi seguir rumo ao centro da metrópole. Próximo ao metrô Anhangabaú consegui descer, ou ser descido. O metrô é outro meio de transporte coletivo que é coletivo demais. Decidi ir a pé até a estação São Bento. Evitaria uma troca de trem e não teria que lutar por um pseudo-espaço num vagão da linha Vermelha. Nenhuma cor combina tanto quanto esta que identifica o trajeto Itaquera - Barra Funda.

Imagem da oferta ridícula de Metro para São Paulo

Imagem da oferta ridícula de Metro para São Paulo

Caminhar pelo centro de São Paulo é ver a multiplicidade pulsando. Pressa, passos, faces. Um que acha pouco o ar poluído da cidade produz sua própria poluição, fuma. Outro que rumando no automático para um ponto cotidiano, caminha. Outro a esmo olha o nada e mostra-se sozinho, vagueia. Um rally a pé por entre todos, corre. Corre como se estivesse prestes a alcançar a rabeira do tempo e segurá-lo. Mas o tempo flui incontestável. Nós envelhecemos. Estação São Bento. Escadas rolantes coletivas demais. Lembram-me cachoeiras de gente como afluentes que alimentariam o rio de Hades. Pessoas belas, feias, estranhas, tristes e, sobretudo, cansadas. A plataforma subterrânea lembra um útero de concreto. A impaciência é coletiva. Um vento anuncia a chegada do trem. Mais uma vez a coletividade impera. Não nascemos para ficar tão juntos, eu acho. Compartilhar tão pouco espaço com tantos, cheira mal. Enoja-me. Mas apenas uma parada e já estou na estação Luz. Conexão gratuita com o trem metropolitano, o mais coletivo de todos os coletivos. O caminho até a plataforma da estação mais vitoriana do Brasil é a representação de que Hades aqui governa. Agora já estou na segunda metade da jornada. Chega o trem.

Plataforma Luz

Plataforma Luz

Vou, é claro, em pé. Meus pés pedem socorro. Eu peço socorro. O trem, indiferente parte. Brás, Mooca, Ipiranga, Tamanduateí, São Caetano, Utinga, Prefeito Saladino, Santo André, Capuava e então a velha sensação de sempre: TODOS descem em Mauá.

Topics: Devaneios |

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