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A menina que coisava quando ficava nervosa…

By mersao | June 29, 2008

Não era fácil para a menina aceitar sua cruel situação. Tinha um humor muito sensível, qualquer coisa a tirava do sério. Naquela idade, com os hormônios pululantes, a vida se mostrando como um caminho de inúmeras alternativas, ficar nervosa era habitual. Não passava um dia sequer sem que se irritasse com alguma coisa. O ruim era que, toda vez que ela ficava nervosa, ela coisava. Às vezes, logo após já ter coisado, percebia inúmeros olhares sobre ela. Olhares patéticos, contendo o riso, olhos afetuosos, olhos alegremente assustados. As pessoas achavam lindo o jeito com que ela coisava. Mas ela odiava coisar. E quanto mais elogiavam seu jeitinho de coisar mais ela odiava esta situação. Quando alguém não resistia e comentava: ‘vejam que coisa mais fofa!’, ela ficava mais nervosa ainda e acabava coisando mais. Tinha onze anos de idade, cabelos ruivos e fartos de uma lisura invejável. Pele oliva e olhos verde mel. Um nariz pequeno e incrivelmente presente. Sobrancelhas espessas e um perfil aquadradado que anunciava uma futura mulher extremamente atraente. Havia pouco tinha menstruado pela primeira vez. Foi um dia terrível. Aquela manifestação fisiológica, incontrolável, que veio sem ser convidada a deixara coisada por quase uma semana. Sua mãe orgulhosa da sua mocinha não ajudava em nada, ao contrário, contribuía para que ela coisasse ainda mais. De família com ascendência italiada, populosa e ruidosa, era a neta mais jovem. Tinha primos com idade para serem seus pais. Todos faziam questão de, na melhor das intenções, atormentá-la de alguma forma afim de força-la a coisar. Se isto acontessece numa reunião de família era delírio geral. Todos adoravam a situação. Uma tia mais velha, gorda e com carinho excessivamente tangível, ficava tão excitada ao vê-la coisando que falava com ela com grunhidos e pieguices de quem fala com um bebê de dois meses. Ela odiava reuniões familiares.

Todo mundo coisava, isto era claro para ela. Mas por que ela tinha que coisar tanto e com tanta intensidade? Na escola, observava suas amigas, uma ou outra coisava com certa freqüência, mas nada comparado à sua situação. Alguns professores demonstravam certo prazer ao vê-la coisar. O garotos, aqueles idiotas, a provocavam para que ela coisasse. Como aquilo era odioso!

A menina escolheu um caminho para evitar a situação odiosa. Começou a evitar as pessoas. Mantinha, claro, as amigas. Mas deixou de ir em festinhas, ficava à margem das reuniões familiares, em sala de aula evitava ao máximo qualquer tipo de exposição. Para compensar a fata de convívio pessoal, desenvolveu o gosto pela leitura. Talvez, prazer fosse a palavra mais correta para este caso. Começou com algumas histórias próprias para sua idade. Descobriu uma coleção chamada Vaga-Lume que era composta por mais de trinta livros. Leu todos. Agatha Christie foi atacada sem piedade por quase um ano. Sidney Sheldon e Harold Hobbins foram devorados sem piedade. Outros autores de best-sellers entraram na lista e assim passaram-se alguns anos. A menina era uma moça. Há muito tempo não coisava mais. Às vezes, com um livro nas mãos, sentada no intervalo entre as aulas, olhava suas, já não tão íntimas, amigas num grupinho e não conseguia imaginar-se junto a elas. Aquela conversinha fútil não era para ela. Ler incansavelmente a tornara uma mulher objetiva, mais inteligente que a média. Tinha um irritante senso crítico sobre tudo, que amedrontava a maioria das pessoas. Saramago, Garcia Marquez, Ernest Hemingway, Jorge Mario Vargas Llosa eram seus atuais amigos. Também algumas incursões no mundo complicado de Stephen Hawking, Einstein, Darwin entre outros. Commumente passava o intervalo conversando com os professores sobre assuntos que iam da política à religião, dos esportes à esploração espacial.

Escolheu economina como profissão. Prestou vestibular em três das mais disputadas universidades para este curso no país, e pôde escolher entre as três. Não se escondia mais de pessoas. Nas reuniões familiares ficava junto aos outros, saía às vezes para se divertir, na universidade comportava-se de forma insuspeitavelmente normal indo, inclusive, às festas que aconteciam nas casas onde viviam os estudantes de outras cidades. Já não tinha mais medo de coisar, aliás, não conseguia lembrar-se da última vez que tinha coisado. Lembrava-se apenas do constrangimento e irritação que a acompanharam até sua puberdade. Lembrava-se de seu primeiro namorado, aos quatorse anos, pelo qual ela era perdidamente apaixonada. Sonhava com ele tudo que uma inocente menina de quatorze anos consegue num sonho de amor. Até o dia que ela descobriu que ele só estava com ela porque adorava o jeito que ela coisava. O amor foi-se embora junto com a vontade de namorar. Decidiu naquele dia que seria lésbica, a exemplo de uma personagem de um livro de Rosamunde Pilcher que a marcara muito. Toda vez que lembrava desta situação não deixava de rir de si mesma. Ser lésbica não era uma decisão. Aos dezessete, descobriu com a ajuda de um norueguês que fazia intercâmbio em sua escola, que era heterosexual. Aquele vicking deixara saudades. Essas lembranças no geral eram irônicas. Ela defendeu-se do mundo, de uma situação, de uma sensação desconfortante e deu certo. Estava vencendo. Era respeitada. Mas também era temida. E ela vinha percebendo isto já algum tempo. Era bem vinda nas rodas familiares, de colegas, mas percebia que as pessoas pensavam no que iam falar a ela. Não agiam de forma natural. Pareciam ter medo de falar alguma besteira. Mais tempo dedicado aos livros e tão pouco tempo às coisas cotidianas a fizeram atípica, inacessível. Isso a incomodou muito. Era resultado de uma desição tomada na adolescência que não tinha volta. Não que ela conseguisse enxergar um retorno.

Concluiu a faculdade como a melhor aluna. Sem espanto para quem a conhecia. Pode escolher a empresa que iria trabalhar e escolheu uma indústria química multinacional. No primeiro ano percorreu quatro áreas distintas da empresa desenvolvendo pequenos projetos em cada uma delas. Pequenos mas de sucesso e boa repercussão. No início do terceiro ano na empresa assumiu um departamento voltado ao planejamento financeiro. Uma secretária e mais oito suborninavam-se a ela. Todos mais velhos. Tinha uma competência notável. Aos vinte e seis anos era uma estrela dentro da corporação. Viagens internacionais eram freqüêntes. Reuniões e seminários eram rotinas. Workaholic, trabalhava em média doze horas por dia. Se comprometia-se com algum prazo, cumpria. A vida profissional ia de vento em popa. A vida pessoal era esmagada pelo trabalho. Comprara um belo e aconchegante apartamento numa região nobre da cidade e a dois anos morava sozinha. Visitava a família uma vez ou duas ao mês. Presenteava pais e irmãos com ótimos presentes em seus aniversários e natal. Sentia que assim compensaria a ausência.

A carreira ia bem. Na empresa cada vez mais valorizada. Viagens internacionais. Roupas finíssimas. Restaurantes e bares de primeira linha. Mas a menina que já era uma mulher estava só. Numa sexta, às quinze horas, desmarcou sua última reunião que era para as dezessete, avisou sua secretária que precisava sair para resolver um problema particular e se foi. Em seu corola pouco rodado, saindo da garagem que ficava no subsolo do prédio onde trabalhava, dirigia sem rumo. Queria ir ao encontro de alguma coisa que ela não possuia mais. Faltava-lhe simplicidade. Faltavam abraços, risadas à toa, descontração. Pegou uma avenida que servia de caminho para sua casa. Era uma sexta-feira de céu azul, ar seco e frio. O sol era um show à parte. As flamboians que habitavam o canteiro central da avenida, dava um toque melancólico àquela jornada rumo ao desconhecido. De repente viu um café que frenquentara pouquíssimas vezes. Com mesas na calçada, guarda-sois brancos, cadeiras e mesas de madeira, era um toque parisiense com forte presença. Decidiu parar alí. Deixou seu carro num estacionamento pouco a frente do café. Ao deixar seu sedã com o manobrista olhou para ele mais tempo que o de costume, como se o medisse. Quando percebeu que o deixara constrangido, disse boa tarde com ar de quem pede desculpas e caminhou até o café.

Um garçom veio muito prontamente atender a linda ruiva que chegara ao café. Ela pediu uma mesa na calçada e ela a encaminhou até lá. Enquanto lia o cardápio sem muita certeza do que queria ou do que, de fato, estava fazendo ali, cheguaram duas estranhas. Mãe e filha. Uma mãe aparentando seus quarenta anos e sua filha com não mais do que dez anos. Também sentaram-se na calçada próximo à ela. Ela decidiu-se por uma frapê com chocolade amargo. Podia dar-se a estes luxos pois sempre fora magra sem nenhum esforço. O garçom veio, anotou seu pedido e retirou-se. Ela estava só. Olhava o movimento na avenida. Admirava o céu azul. Alguma coisa não estava certa mas ela não sabia o que era. Faltava um namorado? Amigos? Mais contato com a família? Tudo isto junto? Menos trabalho? Ela tinha uma coleção enorme de motivos para orgulhar-se de si mesma, mas naquele momento, isto não era importante. Algo a tirou de suas reflexões. Na mesa ao lado, mãe e filha começaram uma discussão. Nada absurda, aliás, uma discussão das que são comuns entre mães e filhas. A menina queria algo e argumentava com muita força. A mãe permanecia contra aquilo, seja lá o que fosse. Foi então, que no calor da discussão, a menina de tão nervosa, coisou. A espectadora que acabara de receber seu frapê, ao ver tal cena entrou num tipo de choque. Não pelo fato da menininha ter coisado, mas pelo fato dela ter achado aquilo lindo. Como um bombardeio de relâmpagos ela lembrou de cenas e cenas de sua infância. Lembranças de que havia coisado e as pessoas próximas declarado o quando gostavam daquilo. Na época ela odiava, mas agora não podia acreditar na sua própria opinião. Era lindo coisar.

Mal provara seu frapê. Deixou uma nota de vinte reais sob o copo e foi embora. Dirigiu até seu apartamento como uma sonâmbula. Sua cabeça estava doendo de tanta coisa que aquela cena lhe trouxera. Deixou o carro em sua vaga, pegou o elevador, felizmente vazio, e finalmente estava em casa. Estava em sua toca. Em sua sala tinha um espelho que ocupava uma parede inteira. Parou em frente ao espelho e tentou coisar. Mesmo achando-se ridícula. Esforçou-se. Tirou os sapatos, o casaquinho que usava. Tentou novamente. A mulher refletida no espelho não coisou. Mas começou a chorar. Percebeu que durante a maior parte da sua vida, negou-se a receber carinho, negou-se ao convívio pacífico e simples, porque isso tudo parecia ridículo. Negou-se a algo que era belo e por isso venceu numa vida que não era a dela. Vivia uma vida que não era a dela. Concluiu, outrossim, que na verdade não vivia, disputava a vida.

Decidiu que mudaria para melhor. Se ela conseguiu? Não se sabe.

Topics: Devaneios |

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