Filho EMO
By Emerson | August 17, 2008
– Oi mamãe!
– Oi filho.
– Oi papai!
– Oi filho…. Opa! Que você fez no cabelo?
– Escureci, só.
– E esse penteado? Filho, você não virou um…
– Um o quê, papai?
– Você não anda ouvindo good charlotte, ene xis zero, evanescence, não é?
– Sim papai, não dá pra negar.
– Meu Pai do céu! Por quê?
– Esse mundo opressivo, esse capitalismo, tanta violência gratuita, o desamor crescente… Sim papai, sou emo!
– Nããããõooooo!! Meu Deus! Onde foi que eu errei?
– Joana, você ouviu isso!!??
– Calma Ademar! Pelo menos ele não usa droga, não rouba. - Disse Joana enquanto fazia o jantar.
– Meu filho! Pelo amor de Deus! Por que você está fazendo isso comigo?
– Pai, ser emo não é crime!
– Que vergonha… E se meus amigos descobrirem? Seu tio Adélio, o que ele vai pensar?
– Pai! O tio Adélio tem um filho gay que no caso é meu primo Juninho!
– Gay tudo bem, mas emo!!! Por quê! Por quê!!
– Papai!!!
– Não me chame de pa pai!!! É só pai, seu emo filho da puta!
– Ademar!!!! O que você disse aí?
– Joana foi força de expressão, mas você bem que merece essa culpa mesmo! No mínimo foi por causa dessa sua mania de assistir novelas do Manoel Carlos! Ta feliz agora?
– Papai, a mamãe não tem nada a ver com isso! Já sou bem grandinho pra decidir por mim!
– Cala boca sua bicha desandada!
– Papai!
– Ademar!
– Eu não mereço isso! - Gritou Ademar com toda força que teve. Certamente os vizinhos assustaram-se. E de repente, tudo ficou escuro.
Ademar sonhava que era um fazendeiro típico do meio oeste americano. Com um garfo de feno arrumava o monte que seria embalado pela máquina. Via Joana ao longe, pela janela de sua casa estilo Cottage provavelmente fazendo uma torta de maçãs. Um riacho corria sonolento mais ao fundo fazendo o barulho de uma sala de estar de uma clínica. No horizonte uma menina vinha correndo saltitante como uma gazela, sem preocupações, com um cesto cheio de cogumelos. Sussurrava uma música meio melódica e vinha sorridente ao seu encontro com seus cabelos negros, extremamente lisos e caindo sobre os olhos. Quando chegou próximo percebeu que a menina era o seu filho…
– AAAaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!
Este grito foi mais assustador do que o que teve antes de entrar em colapso e ter sido induzido ao coma. Seis dias depois Ademar acorda num quarto branco de uma clínica de repouso onde o doparam para que não morresse do coração.
– Joana! Joana! Joana!
– Calma seu Ademar, a dona Joana já está vindo.
Apressada e com cara de desespero, Joana entra no quarto.
– Ademar do céu! Homem de Deus, como se sente?
– Joana. Foi sonho?
– O que Ademar?
– Emo?
– Ademar! Quanta besteira por essa tolice! Repouse homem! Tem sorte de não ter morrido por causa desse seu gênio.
– Cadê ele?
– Depois que te socorreu te carregando no colo até o carro, entrou em depressão.
Ademar olhou para o nada. Parecia irreversível. Tinha que aprender a aceitar. O filho era mesmo emo. Agora só tinha que encontrar uma maneira de convencer o Adélio de que ter filho emo é melhor ou no mínimo a mesma coisa de que ter um filho gay.

EMO
Não deixe de assistir: Confissões de um EMO
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Laurentina
By Emerson | August 1, 2008
Laurentina torceu o pano de chão naquela tarde de quinta feira e terminou de enxugar o piso de vermelhão de sua cozinha. Jogou a água do pequeno balde no tanque que ficava ao lado da porta de saída da cozinha e encostou o rodo na parede. O pano transformou-se num capacho. Assim, quando Euzébio chegasse mais tarde, poderia limpar seus pés antes de entrar.
Sua casa era simples. Cozinha, quarto e banheiro. Ficava numa viela úmida na região chamada Glicério no centro de São Paulo. Limpar a própria casa era um prazer imenso. Laurentina, que chamavam de Tina, era faxineira. E das boas. Tinha todos os dias ocupados de segunda a sábado. Domingo era o único dia de descanso. Chegava em casa sempre antes de Euzébio que era porteiro num prédio na rua Barão de Itapetininga. Evangélicos, tinham uma vida pacata. A casa simples ali no Glicério era um sonho que realizara. A escritura não existia. O medo de perderem a posse de seu lar era aliviado com as orações fervorosas na imensa igreja que ficava próxima dali.
Sua vida pregressa era uma coisa a esquecer. Alcoolismo, aborto, casamentos efêmeros e tudo aquilo que a atual religião pregava como coisa do diabo. Já Euzébio era um cidadão opaco. Conheceram-se na igreja no dia em que Tina convertera-se. Já se passaram cinco anos e ambos viviam bem. Sexo era ruim, mas também era pecado. Não podia se queixar.
A casa estava limpa. Tina observou o chão brilhando, as panelas tão limpas que pareciam espelhos. Os copos na pequena cristaleira. Um jogo de meia dúzia, intocados, mais alguns tantos de diversas cores e tamanhos. Presentes das patroas. Puxou uma cadeira que ainda mantinha o plástico com o qual viera da loja. Assim as mantinham para que durassem mais. Acabara de pagar a última do carnê. Tinha que ter cuidado. Estendeu um pano de copa muito branco sobre a mesa, pegou do armário um saco com feijão e despejou um punhado sobre o pano. Sentou-se e colocou-se a escolher o feijão.
Pensou sobre o dia seguinte, sexta feira. A patroa da sexta era um tanto quanto nervosa, mas a casa era fácil de manter. Cinco horas no máximo estaria em casa. Não podia perder o culto daquela sexta-feira. Seria com um pastor famoso que aparecia até na televisão. Sorriu. Agradeceu a Deus por ter uma vida boa apesar do que fora no passado. Uma casa do seu gosto, um homem bom, emprego e dinheiro para manter a casa e pagar o dízimo. Era realmente uma pessoa de sorte.
Concentrou-se no feijão. Estranhamente não conseguia fixar os olhos no que estava fazendo. As cores começaram a se misturar. Sentiu uma tonteira leve e os lábios formigando. Pensou em pegar um copo d’água. Levantou-se. Tudo girou muito rapidamente. Sentiu o corpo batendo no chão. Frio. Escuridão.
Euzébio guardou o corpo da esposa sozinho durante aquela noite no cemitério da quarta parada. Para o enterro vieram conhecidos, irmãos da igreja e uma das patroas.
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Araúna 165
By Emerson | July 20, 2008
Este relato tem como objetivo mostrar como uma conquista pessoal muito importante para mim transformou-se no maior de meus pesadelos. Mostrar o descaso com que a construtora Fortenge trata seus clientes.
Em 2006 decidi ter meu próprio canto. Com trinta e três anos de idade já era hora de enraizar-me. Como não pretendo, pelo menos por hora, casar-me, procurei por um apartamento pequeno onde pudesse morar bem sem comprometer minha vida social em função de um financiamento. E foi em outubro deste mesmo ano que optei por um apartamento de 45m2 no Sacomã em São Paulo. Preço dentro do que eu pretendia, localização dentro do que eu procurava.
Primeira decepção:
A venda foi realizada pela conceituada Lopes. Vendedor: Horvat que atualmente mudou de alcunha e agora atende como Tomazine. Na hora da compra eu disse a este senhor que gostaria de mudar a cozinha para transformá-la numa cozinha americana. Isto implicaria em fazer uma abertura na parede entre a cozinha e a sala. Ele disse que este procedimento era permitido sem problemas para apartamentos em andares acima do sexto. O meu apartamento é o décimo sexto (último andar) e então não haveria qualquer problema.
Mas houve:
A forma com que o prédio foi construído impede qualquer alteração nas paredes, pois isso comprometeria a estrutura do prédio. Chamam isso de Alvenaria Estrutural. Minha cozinha americana foi para o espaço. Transformar minha cozinha num balcão de bar para receber meus amigos ficou para quando eu puder comprar outro apartamento de outra construtora e outra vendedora é claro. Quando reclamei na Lopes sobre o fato o retorno que tive foi: Senhor. realmente não dá para mexer nas pareces por que isso abalaria a estruturas, blá, blá, blá… Abriremos uma não conformidade interna para tratar o caso.
Mas e eu com essa não conformidade interna? O que eu ganho com isso? Vocês me enganaram, mentiram para mim e responderam o óbvio. Parabéns pra vocês por não resolverem nada.
Segunda decepção:
A obra ficou pronta dentro do prazo. Em dezembro de 2007 eu passava com olhos pidões ao redor do condomínio. Tudo pronto e:
Fortenge silencia.
Isso mesmo, a obra foi concluída e a Fortenge simplesmente ficou quieta. Não se pronunciava para nada. Quando ligava lá a competente atendente que contrataram para seus clientes nunca conseguir informar nada decentemente. Passaram janeiro, fevereiro e março. Nada de informações. Nenhum cuidado foi demonstrado. Sentia-me como se eu estive reclamando sobre a compra de uma dúzia de ovos.
Terceira decepção e consolidação do pesadelo:
Em abriu saiu o habite-se. Mas só da torre Araúna. Começaram as convocações para a vistoria dos apartamentos. Eu estava no Chile e meu amigo e também vítima informou-me por e-mail. No dia que cheguei em São Paulo, antes mesmo de passar pela alfândega já liguei pra Fortenge. Diálogo com a Senhora Rejane:
(eu) Oi Rejane, soube que as vistorias do Araúna começaram, queria saber quando farei a minha.
(Rejane) Qual seu apartamento? (eu já havia informado)
(eu) O 165, Rejane.
(Rejana) Ah! A vistorias começaram do décimo quinto para baixo, o seu apartamento será o último.
(eu) Por quê??
(Rejane) Isso é com quem agenda. Foi agendado assim. Vão te ligar.
(eu) No é possível, tem que ter um motivo.
(Rejane) Eles vão te ligar, Emerson…
…
Bem, eu tive que reenviar meus dados de telefone, pois segundo esta atendente teria que atualiza-los. Fui pessoalmente até o prédio para tentar descobrir o porquê das vistorias terem iniciado do décimo quinto para baixo e descobri que houve uma falha no telhado e meu apartamento tinha alagado com chuvas. Eles estavam repintando e trocando as portas.
No dia 07 de maio de 2008 finalmente entrei no apartamento e fiz a vistoria. Mas encontrei um apartamento diferente do que eu comprei. Perdi uma área útil perfeita para um armário que ficaria atrás da porta de entrada. Demais itens estavam dentro do aceitável.
Fiquei então no aguardo para a convocação da primeira reunião de condomínio. Ligaram-me para que fosse até a Fortenge para tratar dos últimos detalhes antes da reunião de condomínio e a sonhada entrega das chaves. Fui até lá e ocorreu o seguinte:
- Falei com uma representante da Caixa Econômica Federal que me explicou o motivo da demora: um erro na medição do terreno (erro crasso comum em amadores) e este erro impedia que a documentação do empreendimento fosse liberada pela prefeitura. Como a diferença era para menos, assinei um termo concordando que a diferença seria agregada ao terreno pegando-se uma área do terreno ao lado que é da Fortenge.
- Falei com a atendente Rejane que me explicou que a Fortenge estaria dando em troca do erro da planta um box mais alguns acessórios para o banheiro. Como no momento não dava para brigar por mais nada aceitei. Ela disse que isto estaria instalado até a entrega das chaves. Mais um mentira pelo visto. Falei com moradores que estão reformando seus apartamentos e até agora (20/07/2008) não instalaram nada.
- Falei com a Senhora Regina que cuida da parta de cobrança, e isto ela faz muito bem, que me explicou sobre a diferença do INCC e das condições para a entrega das chaves. Eu deveria pagar o INCC e quanto as anuais de 2008 e 2009 deveria ter um fiador ou adiantar o pagamento. Se eu tivesse tudo isto resolvido no dia 13 de junho de 2008, no dia 17 eu teria as chaves em mãos. Isto a Senhora Regina me prometeu. Eu acreditei nela e foi mais uma que eu caí com esta empresa. No dia 13 de julho desembolsei mais de nove mil reais de uma só vez para que isto tudo estive certo conforme prometido.
A reunião de condomínio do edifício Araúna ocorreu no dia 16 de junho de 2008. Foram momentos de muita briga, discussão e desabafos. Eu estava perdido, acreditando ainda nesta empresa e cheguei a me desentender com alguns futuros vizinhos. Uma minoria já estava sabendo das mentiras da Fortenge, das informações sobre a Caixa Econômica descasadas, sobre o habite-se que não valia nada. Eu, infelizmente fazia parte da maioria. A reunião acabou com o condomínio instalado.
No dia 17 de julho de 2008 liguei na Fortenge para saber se poderia ir buscar minhas chaves e fui informado de que não poderia ir buscá-las. Disseram que era problema da Caixa e que esta instituição que não queria liberar o dinheiro. Que a Fortenge fizera tudo de forma correta e um caminha de mentiras que é a forma como eles trabalham.
Depois disto eu assumi que sou um trouxa muito bem trapaceado por esta construtora. Através de contatos que peguei no dia na reunião de condomínio me aproximei da galera que já havia algum tempo estava se reunindo e descobri, não sem amargar a boca, de que não sabia de quase nada.
Fatos relevantes:
- O habite-se de uma única torre não serve para que a Caixa Econômica Federal libere os recursos para a Fortenge;
- A Fortenge demorou muito tempo para responder aos questionamentos da prefeitura em relação ao processo de regularização da obra;
- A Fortenge não respeitou o limite mínimo necessário entre uma construção e outra. O estacionamento construído está encostado no prédio da frente que já tem 55 anos de existência. Isto está impactando na regularização da área comum;
- O terreno que vão incorporar ao condomínio fica numa área de acesso difícil e não terá muita utilidade;
Este é meu pesadelo atual. Já paguei mais da metade do apartamento, ele está pronto e não posso morar nele. Agora só resta protestar.
E se você não assistiu, não deixe de ver: Proteste Já no CQC
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A menina que coisava quando ficava nervosa…
By Emerson | June 29, 2008
Não era fácil para a menina aceitar sua cruel situação. Tinha um humor muito sensível, qualquer coisa a tirava do sério. Naquela idade, com os hormônios pululantes, a vida se mostrando como um caminho de inúmeras alternativas, ficar nervosa era habitual. Não passava um dia sequer sem que se irritasse com alguma coisa. O ruim era que, toda vez que ela ficava nervosa, ela coisava. Às vezes, logo após já ter coisado, percebia inúmeros olhares sobre ela. Olhares patéticos, contendo o riso, olhos afetuosos, olhos alegremente assustados. As pessoas achavam lindo o jeito com que ela coisava. Mas ela odiava coisar. E quanto mais elogiavam seu jeitinho de coisar mais ela odiava esta situação. Quando alguém não resistia e comentava: ‘vejam que coisa mais fofa!’, ela ficava mais nervosa ainda e acabava coisando mais. Tinha onze anos de idade, cabelos ruivos e fartos de uma lisura invejável. Pele oliva e olhos verde mel. Um nariz pequeno e incrivelmente presente. Sobrancelhas espessas e um perfil aquadradado que anunciava uma futura mulher extremamente atraente. Havia pouco tinha menstruado pela primeira vez. Foi um dia terrível. Aquela manifestação fisiológica, incontrolável, que veio sem ser convidada a deixara coisada por quase uma semana. Sua mãe orgulhosa da sua mocinha não ajudava em nada, ao contrário, contribuía para que ela coisasse ainda mais. De família com ascendência italiada, populosa e ruidosa, era a neta mais jovem. Tinha primos com idade para serem seus pais. Todos faziam questão de, na melhor das intenções, atormentá-la de alguma forma afim de força-la a coisar. Se isto acontessece numa reunião de família era delírio geral. Todos adoravam a situação. Uma tia mais velha, gorda e com carinho excessivamente tangível, ficava tão excitada ao vê-la coisando que falava com ela com grunhidos e pieguices de quem fala com um bebê de dois meses. Ela odiava reuniões familiares.
Todo mundo coisava, isto era claro para ela. Mas por que ela tinha que coisar tanto e com tanta intensidade? Na escola, observava suas amigas, uma ou outra coisava com certa freqüência, mas nada comparado à sua situação. Alguns professores demonstravam certo prazer ao vê-la coisar. O garotos, aqueles idiotas, a provocavam para que ela coisasse. Como aquilo era odioso!
A menina escolheu um caminho para evitar a situação odiosa. Começou a evitar as pessoas. Mantinha, claro, as amigas. Mas deixou de ir em festinhas, ficava à margem das reuniões familiares, em sala de aula evitava ao máximo qualquer tipo de exposição. Para compensar a fata de convívio pessoal, desenvolveu o gosto pela leitura. Talvez, prazer fosse a palavra mais correta para este caso. Começou com algumas histórias próprias para sua idade. Descobriu uma coleção chamada Vaga-Lume que era composta por mais de trinta livros. Leu todos. Agatha Christie foi atacada sem piedade por quase um ano. Sidney Sheldon e Harold Hobbins foram devorados sem piedade. Outros autores de best-sellers entraram na lista e assim passaram-se alguns anos. A menina era uma moça. Há muito tempo não coisava mais. Às vezes, com um livro nas mãos, sentada no intervalo entre as aulas, olhava suas, já não tão íntimas, amigas num grupinho e não conseguia imaginar-se junto a elas. Aquela conversinha fútil não era para ela. Ler incansavelmente a tornara uma mulher objetiva, mais inteligente que a média. Tinha um irritante senso crítico sobre tudo, que amedrontava a maioria das pessoas. Saramago, Garcia Marquez, Ernest Hemingway, Jorge Mario Vargas Llosa eram seus atuais amigos. Também algumas incursões no mundo complicado de Stephen Hawking, Einstein, Darwin entre outros. Commumente passava o intervalo conversando com os professores sobre assuntos que iam da política à religião, dos esportes à esploração espacial.
Escolheu economina como profissão. Prestou vestibular em três das mais disputadas universidades para este curso no país, e pôde escolher entre as três. Não se escondia mais de pessoas. Nas reuniões familiares ficava junto aos outros, saía às vezes para se divertir, na universidade comportava-se de forma insuspeitavelmente normal indo, inclusive, às festas que aconteciam nas casas onde viviam os estudantes de outras cidades. Já não tinha mais medo de coisar, aliás, não conseguia lembrar-se da última vez que tinha coisado. Lembrava-se apenas do constrangimento e irritação que a acompanharam até sua puberdade. Lembrava-se de seu primeiro namorado, aos quatorse anos, pelo qual ela era perdidamente apaixonada. Sonhava com ele tudo que uma inocente menina de quatorze anos consegue num sonho de amor. Até o dia que ela descobriu que ele só estava com ela porque adorava o jeito que ela coisava. O amor foi-se embora junto com a vontade de namorar. Decidiu naquele dia que seria lésbica, a exemplo de uma personagem de um livro de Rosamunde Pilcher que a marcara muito. Toda vez que lembrava desta situação não deixava de rir de si mesma. Ser lésbica não era uma decisão. Aos dezessete, descobriu com a ajuda de um norueguês que fazia intercâmbio em sua escola, que era heterosexual. Aquele vicking deixara saudades. Essas lembranças no geral eram irônicas. Ela defendeu-se do mundo, de uma situação, de uma sensação desconfortante e deu certo. Estava vencendo. Era respeitada. Mas também era temida. E ela vinha percebendo isto já algum tempo. Era bem vinda nas rodas familiares, de colegas, mas percebia que as pessoas pensavam no que iam falar a ela. Não agiam de forma natural. Pareciam ter medo de falar alguma besteira. Mais tempo dedicado aos livros e tão pouco tempo às coisas cotidianas a fizeram atípica, inacessível. Isso a incomodou muito. Era resultado de uma desição tomada na adolescência que não tinha volta. Não que ela conseguisse enxergar um retorno.
Concluiu a faculdade como a melhor aluna. Sem espanto para quem a conhecia. Pode escolher a empresa que iria trabalhar e escolheu uma indústria química multinacional. No primeiro ano percorreu quatro áreas distintas da empresa desenvolvendo pequenos projetos em cada uma delas. Pequenos mas de sucesso e boa repercussão. No início do terceiro ano na empresa assumiu um departamento voltado ao planejamento financeiro. Uma secretária e mais oito suborninavam-se a ela. Todos mais velhos. Tinha uma competência notável. Aos vinte e seis anos era uma estrela dentro da corporação. Viagens internacionais eram freqüêntes. Reuniões e seminários eram rotinas. Workaholic, trabalhava em média doze horas por dia. Se comprometia-se com algum prazo, cumpria. A vida profissional ia de vento em popa. A vida pessoal era esmagada pelo trabalho. Comprara um belo e aconchegante apartamento numa região nobre da cidade e a dois anos morava sozinha. Visitava a família uma vez ou duas ao mês. Presenteava pais e irmãos com ótimos presentes em seus aniversários e natal. Sentia que assim compensaria a ausência.
A carreira ia bem. Na empresa cada vez mais valorizada. Viagens internacionais. Roupas finíssimas. Restaurantes e bares de primeira linha. Mas a menina que já era uma mulher estava só. Numa sexta, às quinze horas, desmarcou sua última reunião que era para as dezessete, avisou sua secretária que precisava sair para resolver um problema particular e se foi. Em seu corola pouco rodado, saindo da garagem que ficava no subsolo do prédio onde trabalhava, dirigia sem rumo. Queria ir ao encontro de alguma coisa que ela não possuia mais. Faltava-lhe simplicidade. Faltavam abraços, risadas à toa, descontração. Pegou uma avenida que servia de caminho para sua casa. Era uma sexta-feira de céu azul, ar seco e frio. O sol era um show à parte. As flamboians que habitavam o canteiro central da avenida, dava um toque melancólico àquela jornada rumo ao desconhecido. De repente viu um café que frenquentara pouquíssimas vezes. Com mesas na calçada, guarda-sois brancos, cadeiras e mesas de madeira, era um toque parisiense com forte presença. Decidiu parar alí. Deixou seu carro num estacionamento pouco a frente do café. Ao deixar seu sedã com o manobrista olhou para ele mais tempo que o de costume, como se o medisse. Quando percebeu que o deixara constrangido, disse boa tarde com ar de quem pede desculpas e caminhou até o café.
Um garçom veio muito prontamente atender a linda ruiva que chegara ao café. Ela pediu uma mesa na calçada e ela a encaminhou até lá. Enquanto lia o cardápio sem muita certeza do que queria ou do que, de fato, estava fazendo ali, cheguaram duas estranhas. Mãe e filha. Uma mãe aparentando seus quarenta anos e sua filha com não mais do que dez anos. Também sentaram-se na calçada próximo à ela. Ela decidiu-se por uma frapê com chocolade amargo. Podia dar-se a estes luxos pois sempre fora magra sem nenhum esforço. O garçom veio, anotou seu pedido e retirou-se. Ela estava só. Olhava o movimento na avenida. Admirava o céu azul. Alguma coisa não estava certa mas ela não sabia o que era. Faltava um namorado? Amigos? Mais contato com a família? Tudo isto junto? Menos trabalho? Ela tinha uma coleção enorme de motivos para orgulhar-se de si mesma, mas naquele momento, isto não era importante. Algo a tirou de suas reflexões. Na mesa ao lado, mãe e filha começaram uma discussão. Nada absurda, aliás, uma discussão das que são comuns entre mães e filhas. A menina queria algo e argumentava com muita força. A mãe permanecia contra aquilo, seja lá o que fosse. Foi então, que no calor da discussão, a menina de tão nervosa, coisou. A espectadora que acabara de receber seu frapê, ao ver tal cena entrou num tipo de choque. Não pelo fato da menininha ter coisado, mas pelo fato dela ter achado aquilo lindo. Como um bombardeio de relâmpagos ela lembrou de cenas e cenas de sua infância. Lembranças de que havia coisado e as pessoas próximas declarado o quando gostavam daquilo. Na época ela odiava, mas agora não podia acreditar na sua própria opinião. Era lindo coisar.
Mal provara seu frapê. Deixou uma nota de vinte reais sob o copo e foi embora. Dirigiu até seu apartamento como uma sonâmbula. Sua cabeça estava doendo de tanta coisa que aquela cena lhe trouxera. Deixou o carro em sua vaga, pegou o elevador, felizmente vazio, e finalmente estava em casa. Estava em sua toca. Em sua sala tinha um espelho que ocupava uma parede inteira. Parou em frente ao espelho e tentou coisar. Mesmo achando-se ridícula. Esforçou-se. Tirou os sapatos, o casaquinho que usava. Tentou novamente. A mulher refletida no espelho não coisou. Mas começou a chorar. Percebeu que durante a maior parte da sua vida, negou-se a receber carinho, negou-se ao convívio pacífico e simples, porque isso tudo parecia ridículo. Negou-se a algo que era belo e por isso venceu numa vida que não era a dela. Vivia uma vida que não era a dela. Concluiu, outrossim, que na verdade não vivia, disputava a vida.
Decidiu que mudaria para melhor. Se ela conseguiu? Não se sabe.
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Coletivos
By Emerson | June 29, 2008
Saí no horário e caminhei para o ponto de ônibus. Sair do trabalho para mim é continuar trabalhando andando. Os problemas me acompanham quase sempre. Devo parecer louco, pois enquanto imagino o trabalho, também converso. O sol ainda estava em algum lugar, mas as sombras dos edifícios traziam a sensação antecipada do anoitecer. O céu agora era de verão. São Paulo tem destas, você vive todas as estações do ano, num único dia. Por entre os prédios, o entardecer róseo dava um tom melancólico ao meu trajeto. Atravessei a Faria Lima no cruzamento com a Rebouças. Cheguei ao ponto. Um ponto bonito, moderno e projetado por pessoas que não precisam usá-lo. O problema do transporte coletivo é que é coletivo demais. Passa um ônibus, outro e mais outro. Sempre lotados, lentos. Cotovelos, pisões, empurrões. A educação não pega ônibus. Sinto-me um espermatozóide tentando fecundar um óvulo. Passa um menos cheio. Destino: Praça Ramos. Não é o ideal, mas entro neste. Chegando na Consolação desço e caminho até o metrô de mesmo nome que fica na Paulista. Não entendo por que esta estação não se chama Hadock Lobo ou Bela Cintra. Meus planos estavam feitos, mas o universo decidiu por outro. O ônibus arrastou-se Rebouças acima e quando chegou à Consolação estava tão cheio que não consegui descer. O jeito foi seguir rumo ao centro da metrópole. Próximo ao metrô Anhangabaú consegui descer, ou ser descido. O metrô é outro meio de transporte coletivo que é coletivo demais. Decidi ir a pé até a estação São Bento. Evitaria uma troca de trem e não teria que lutar por um pseudo-espaço num vagão da linha Vermelha. Nenhuma cor combina tanto quanto esta que identifica o trajeto Itaquera - Barra Funda.
Caminhar pelo centro de São Paulo é ver a multiplicidade pulsando. Pressa, passos, faces. Um que acha pouco o ar poluído da cidade produz sua própria poluição, fuma. Outro que rumando no automático para um ponto cotidiano, caminha. Outro a esmo olha o nada e mostra-se sozinho, vagueia. Um rally a pé por entre todos, corre. Corre como se estivesse prestes a alcançar a rabeira do tempo e segurá-lo. Mas o tempo flui incontestável. Nós envelhecemos. Estação São Bento. Escadas rolantes coletivas demais. Lembram-me cachoeiras de gente como afluentes que alimentariam o rio de Hades. Pessoas belas, feias, estranhas, tristes e, sobretudo, cansadas. A plataforma subterrânea lembra um útero de concreto. A impaciência é coletiva. Um vento anuncia a chegada do trem. Mais uma vez a coletividade impera. Não nascemos para ficar tão juntos, eu acho. Compartilhar tão pouco espaço com tantos, cheira mal. Enoja-me. Mas apenas uma parada e já estou na estação Luz. Conexão gratuita com o trem metropolitano, o mais coletivo de todos os coletivos. O caminho até a plataforma da estação mais vitoriana do Brasil é a representação de que Hades aqui governa. Agora já estou na segunda metade da jornada. Chega o trem.
Vou, é claro, em pé. Meus pés pedem socorro. Eu peço socorro. O trem, indiferente parte. Brás, Mooca, Ipiranga, Tamanduateí, São Caetano, Utinga, Prefeito Saladino, Santo André, Capuava e então a velha sensação de sempre: TODOS descem em Mauá.
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Conheça-me
By Emerson | June 28, 2008
Eu tenho uma indescritível paixão por contrastes. Eu como coisas que têm sabor, mas fazem mal. Eu bebo tudo aquilo que me faz sentir bem, mas que faz mal. Eu gosto de saber o sabor das coisas que não gosto. Eu não resisto em ser contraditório só para dar mais ritmo à conversa. Eu gosto de trabalhar, e também gosto de dormir. Eu adoro música brasileira, e não gosto do João Gilberto. Acho o Senna um piloto fantástico, mas também valorizo o Piquet. Sou cristão budista. Não condeno o islamismo. Tenho nojo de racista de qualquer espécie. Gosto de futebol, mas não decoro nome de jogador. Gosto de mulher bonita, mas beijo todas as que me atraírem, e nem sempre o que me atrai é a beleza. Adoro a teoria dos teoremas teóricos. Não tenho a pretensão de morrer velho. Alguns poucos e bons vividos anos estão bons pra mim. Acredito que a morte é só o fim de mais uma etapa. Gosto de praticar o bem, mas tenho o feito muito pouco. Se eu pudesse viajaria doze vezes ao ano para doze lugares diferentes e passaria no mínimo doze dias em cada um destes lugares. Evito discutir com pessoas que não sabem conjugar o verbo ouvir. Não deixo de ser sincero para ser gentil. Não tenho medo de gente. É muito difícil para mim, recusar um convite para um happy hour. Eu sei que não ficarei rico. Tenho pena de quem pensa que tem dinheiro, mas é possuído por ele. Tenho preguiça de praticar esportes. Não tenho preguiça de ir a bares e restaurantes. Não pretendo me casar, mas casaria com a Catherine Zeta-Jones. Não consigo mentir para meus pais, mesmo que a pergunta seja comprometedora. Acho que a mídia estraga quase tudo que ela promove. Eu acho que estereótipos é carimbo de falta de inteligência. Toda modinha, onda e afins é invariavelmente não-inteligente. O fato de eu gostar de uma banda não significa que eu tenha que saber nome e sobrenome de todos os componentes, quando nasceram, do que gostam e se lavam seus pés antes de dormir. Acho que o brasileiro médio é acomodado e burro, mesmo se achando malandro. Eu costumo falar sozinho durante o trânsito. Eu não sei cantar, mas secretamente, no aconchego de meu quarto, eu arrisco às vezes. Tenho poucos e valiosíssimos amigos. Quanto à amizade, a qualidade é melhor que a quantidade. Gosto de crianças dos outros. Admiro pessoas simples e despretensiosas. Gostaria de ser simples e despretensioso. É isso!
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